Mesmo levados por uma obsessão em ver "restauros e alterações (...) e substituição de alguns diamantes nos elementos centrais", é por demais evidente que nenhuma das
pedras foi substituída ou há vestígios de qualquer alteração, isto vendo a laça pela frente e observando em pormenor o estado das cravações. O que se constata é que
existem diferentes lapidações, condizentes com os revivalismos que misturam talhes dos séculos XVIII, XIX e XX, sendo a técnica de cravação distinta da usada no séc. XVIII.
Ao analisar o verso mais evidente se torna que estamos na presença de uma peça que não sofreu qualquer tipo de alteração, em que a própria estrutura de ouro (que seria
a tal adaptação realizada no séc. XX) está conforme a estrutura de prata e que esta, sendo do século XVIII ou mesmo do XIX teria tido uma argola de suspensão ou então
como seria usada? Ou teria tido duas "pontes" para fita de seda ou terminais para cavilhar colar, mas nada disso existe ou existiu!
A forma como os "berços" dos dois brilhantes das flores estão cavilhados em nada condizem com o que se fazia no séc. XVIII, e deduzir daí que se trata de restauro,
alteração ou substituição é mera desonestidade intelectual. Mesmo o local e a forma como as marcas estão apostas nos elementos da peça de prata só é possível quando
a jóia vai à marcação no estado bruto, caso contrário ficaria danificada, como qualquer joalheiro sabe.
Meio adereço séc. XVIII com estojo de origem.
Adereço prata e ouro, séc. XVIII
Meio adereço séc. XVIII
Nestas várias laças do séc: XVIII é possível ver os elementos em ouro que enriqueciam este tipo de peças sempre que utilizavam
diamantes em talhe rosa e brilhantes. Pelo alto preço que estes tinham na época o acabamento das jóias era mais primoroso que nas
congéneres cravejadas com topázios, crisólitas ou minas-novas.
Laça verso
Verso de Laça com "Crisólitas", cerca de 1800.
Laça citrinos
Aqui é bem visível o acabamento entre uma laça com diamantes e outra com "crisólitas".
Seja como for ou existe argola de suspenção ou, para além desta, há as tais "pontes" para
passar a fita de seda com que se "lançava ao pescoço".
Nesta recriação do séc. XX só há o alfinete,
neste caso em prata e tendo "nascido" com a
peça, sem argola de suspensão.
Está claro que nenhuma das laças de época possui qualquer marca, quanto muito surgem por vezes "remarcadas" com o contraste
"cabeça de velho" como acontece mais frequentemente nas pratas. Nunca, mas mesmo nunca, em mais de 30 anos de avaliações
nos surgiu, nem a nós nem a outros avaliadores que lidam diariamente com jóias e têm uma experiência de dezenas de anos, uma
jóia do século XVIII ou XIX que tivesse ido á Contrastaria ser marcada por um qualquer ourives do séc. XX.

Afirmou João Júlio que
"Sabendo de antemão que a legislação em Portugal impedia (e em bom rigor ainda impede) a venda de
objectos de metal precioso sem punção - mesmo que usados - é
naturalíssimo e mais que vulgar encontrar no mercado peças
remarcadas à época em que foram revendidas, tal como natural é também encontrar peças remarcadas pelos ourives que nessa ou
noutra época, tenham intervencionado a peça de forma mais ou menos profunda".
Afirmar tal coisa é, para além de uma enorme
falsidade, abrir a porta para que uma qualquer leiloeira sem escrúpulos comece a escoar o imenso acervo de peças revivalistas em
mão de comerciantes e particulares, transmutadas em genuínas antiguidades e raridades. Certamente irá dar muito dinheiro a
ganhar a quem o fizer, mas acabará por descredibilizar todo o mercado.  

Já bastam as asneiras que são vertidas nos livros natalícios sobre ourivesaria ou joalharia, bastando recordar a enormidade que é a
legenda da foto do lado direito, onde um pequeno laço em prata cravejado com vidros espelhados, trabalho da 2ª metade do séc. XX,
é apresentado como uma magnífica jóia de 1790, numa redacção que faz inveja aos prospectos publicitários da Art Gallery...
Alfinete laço
Sabemos por experiência própria que são muitas as peças de prata (que não de adorno pessoal) que apresentam marcas de ourives posteriores aos que de facto as
realizaram. Geralmente ou mantêm as marcas originais, ou as novas se lhes sobreposeram, ou - mais raramente - não possuiam qualquer marca e foram marcadas por
outro ourives para assim serem vendidas. Isto passou-se em finais do séc. XVIII e ao londo do séc. XIX, tendo até sido remarcadas peças da baixela Germain que tinham ido
a reparar. Mas são excepções e é preciso o maior dos cuidados e grande honestidade para não se desatar a classificar os revivalismos como obras originais e de época.

O exemplo mais flagrante do perigo em reclassificar peças revivalistas como sendo originais, está bem patente na obra do académico espanhol Manuel Cruz Valdovinos
Platería Europea en España 1300-1700, onde uma salva com contraste javali e marca do prateiro do Porto João Joaquim Monteiro é prodigiosamente reclassificada como
obra de um tal António Alvares da Veiga, anterior a 1690...!!! Qualquer pessoa que se interesse por pratas antigas já inúmeras vezes tropeçou nos revivalismos deste ourives,
sejam salvas de parede como as inúmeras tambuladeiras á maneira do séc. XVII. Mas Valdovinos foi ao ponte de afirmar que a marca javali foi utilizada para marcar peças
antigas. Atá na marca do JJ Monteiro ele vislumbra um cavalo a fazer o pino, quando é um leão rampante, só que apresentou a marca invertida... Mais à frente afirma que
"a
possibilidade de que a peça tenha sido feita antes de 1690 se vê confirmada pela análise formal e decorativa".
Imaginemos os técnicos de uma qualquer polícia científica a
analisarem se uma nota é falsa pela análise formal e decorativa. Para Valdovinos uma nota de 100 dólares falsa deve ter escrito 99 ou 101 e em vez de um presidente
americano terá um monarca dinamarquês, e se a data for de 1950 certamente apresentará as torres gémeas de Nova Iorque! Infelizmente è assim que muitos académicos
abordam as peças que pretendem datar, sempre no pressuposto que os revivalismos contêm incongruências ou que os falsificadores não passam de uns analfabetos. É
verdade que um célebre falsificador inglês pintou um quadro como sendo mediaval onde um dos personagens empunhava um copo de cerveja da guinness, mas isso foi
pelo simples gozo em assisrir aos mais reputados especialistas a atestar que o quadro era antigo. Porque não é de todo caso único, em baixo deixamos o link para que
possam ler na íntegra o que Valdovinos escreve sobre a dita salva. Por acaso temos uma muito semelhante, igualmente do J J Monteiro e com a tal marca javali que passou
a atestar as pratas portuguesas anteriores a 1690, portanto, caro Valdovinos, se ler este texto lembre-se de nós...
Salva Valdovinos
Salva Valdovinos 1
Pensamos que este caso despoletado por João Júlio Teixeira sirva, de algum modo,
para esclarecer questões que são da máxima importância. O nosso artigo sobre o
contraciclo do ouro demonstra bem como as épocas de crise levam ao desapareci-
mento de quantidades imensas de artefactos de ourivesaria. Sempre assim aconteceu e
é por isso que as jóias do séc. XVIII são raras e caras, principalmente aquelas que
continhas diamantes muito mais valiosos e raros em épocas passadas, que foram
quase todas vendidas para fora do país.
Portanto é bom que fique assente que o facto de um determinado objecto não ter
"entrada USB" não faz dele uma relíquia de séculos passados, pode ser já velhinho mas
para antiguidade ainda vai ter que esperar uns cem anitos mais...
Epílogo: João Júlio Teixeira enviou-nos um email, a 19 de Abril, a informar que retirava o comentário do seu
blogue, pois após ver as fotos de alta resolução achou que as dúvidas eram suficientes para o fazer. Louvamos
a sua atitude e aproveitamos para comunicar que, a 11 de Abril, a Sotheby's não consegui comprador para a
jóia, isto apesar do preço mais que aliciante para quem acreditasse na descrição...!
A Alquimia do Tempo
ou a simples arte de mudar a idade das coisas...
Ao lermos a última mensagem de João Júlio Teixeira no seu excelente blogue Arte em Números, intitulado
Reaparecidos, não podemos deixar de fazer alguns esclarecimentos, não tanto em defesa de uma qualquer
"honra", mas pelo simples facto de que a matéria em questão é pertinente e algumas das afirmações têm
implicações sérias e graves no comércio de antiguidades, no caso concreto no âmbito da ourivesaria.
Afirma João Júlio que "Um olhar mais minucioso à jóia permitia
ao olho treinado reconhecer vários restauros e alterações,
especialmente na substituição de alguns diamantes nos
elementos centrais. Contudo no que toca à estrutura de prata,
à forma e cravação dos elementos vegetalistas bem como à
maioria das gemas, tudo apontava para uma datação original da
segunda metade do século XVIII".
Então vamos lá a um olhar mais minucioso e façam o favor
em observar as duas fotos em alta resolução que tirámos à
peça:
                                                        
Laça CML
Laça CML verso
Frente
Verso