Ao consultarmos os candelabros da baixela Germain, constatámos que os dois pares eram em tudo idênticos aos que tinham pertencido ao Duque de Aveiro e que, com o sequestro ordenado pelo rei D. José, tinham
incorporado o tesouro real. Assim temos que existem 12 candelabros de quatro lumes com marcas de François Thomas Germain, datados de 1756-58 e 11 de cinco lumes com marcas de Guillaume-Alexis Jacob (as
bases) e de Simon Levêque (as serpentinas), datados de 1757-58.
Caso os candelabros de Pierre Balzac fossem verdadeiros, significava que tanto Germain, Alexis Jacob e Levêque teriam, uma década depois, copiado os seus modelos, algo que poria em causa parte da História da
ourivesaria francesa do século XVIII...!
Ao aprofundarmos mais as obras de Pierre Balzac, eis que nos deparamos com um par igual e com a mesma data de 1745-46, existente no Museum of Fine Arts de Boston. Interessa realçar que este museu possui mais
32 peças de Edme Pierre Balzac, o que mais confusão lançou nas nossas cabeças - estariamos enganados quanto às marcas serem falsas, e teriam os candelabros da nossa baixela sido uma cópia de obra sua?
Candelabros Silvas
Candelabros "B" vendidos na leiloeira Silva's em 1992, como
sendo do séc. XVIII, com um valor base de 4.000 contos
(€20.000), sendo que não valeriam mais de 400 contos...
Candelabro Thomas Germain
Candelabro Jacob - Levêque foto
Os candelabros da esquerda são de François Thomas Germais e os da direita de
Guillaume-Alexis Jacob e Simon Levêque. As cópias com marcas de Balzac baseiam-se
nos primeiros, cujas serpentimas têm muitas afinidades com as de Germain.
Candelabros do Museu de Boston, comprados
pelo milionário Harvey S. Firestone Jr. no ano
de 1957, a um antiquário de Nova Iorque, com a
informação de que provinham de uma família
portuguesa. O facto de apresentarem dupla
marcação de "cabeça de velho", reforça a
convicção de que teriam sido comprados em
Portugal. Esta marca só raras vezes era pedida
por particulares, e mais rara ainda em peças
estrangeiras.
Com a preciosa colaboração da curadora do museu de Boston, Rebecca Tilles, ficámos a saber que a mesma pessoa que agora propunha para leilão os candelabros “A”, os
primeiros a serem vistos em 2012, era a mesma que em 1962 tinha proposto a sua venda ao Sr. Firestone, da qual o museu de Boston conserva a respetiva correspondência. Ou
seja, há precisamente 50 anos que estes candelabros estão à venda pela mesma pessoa, podendo-se tratar de pai e filho com o mesmo nome e apelido, colocando-se
igualmente a questão se os candelabros são os mesmos ou esta(s) pessoa(s) terem tido mais que um par, todos com as marcas falsas de Balzac e marcas francesas de 1745-
46. E, já agora, quem teria colocado no leilão dos Silva's o par que tudo leva a crer ser o “B”?

Para adensar ainda mais este mistério, eis que descobrimos que em 2009 a Christie’s tinha vendido um par igual, assumindo no catálogo que as marcas eram “spurious”, sendo
que espúrias é sinónimo falsas, só que num português mais vernáculo. E o preço final, já com a comissão da leiloeira e respetivas taxas, foi de £3.000, sendo que pesavam 6.493
grs, ou seja, meramente ao preço da prata.

O mais esclarecedor é que os dois lotes imediatamente anteriores eram dois pares de candelabros iguais mas com marca águia do Porto pós-1938, sendo que um par ainda
oferecia uns castiçais iguais às bases dos de Balzac. E não é que o par do Porto foi vendido por £4.375...! Pena o fabricante das cópias com marca do Porto não tenha sido
identificado, pois é muito provável que os falsos provenham da mesma oficina e, assim, teríamos o mistério esclarecido.

Até agora já temos no mínimo quatro pares de candelabros com marcas falsas de Pierre Balzac, sendo extraordinário que todos apresentem a mesma marca de paris letra "E"
coroado que esteve em vigor entre 27 de Novembro de 1745 e 27 de Novembro de 1746, ou seja, num só ano Pierre Balzac teria executado para um hipotético cliente português,
nada menos que quatro pares de candelabros, que permaneceriam incógnitos por mais de 200 anos...!

De notar que somente o par de Boston apresenta dupla marca de "cabeça de velho" (nos da Christie's desconhecemos se também a possuem), o que significa, sem margem
para qualquer dúvida, que foram de Portugal para os Estados Unidos da América. Será de acrescentar que é vulgar aparecerem peças com marcas falsas que foram à Casa da
Moeda para serem puncionadas com a marca da "cabeça de velho", uma forma de, a troco de uns meros escudos, a autoridade máxima na matéria em Portugal atestar como
verdadeiras peças que não passam de meras falsificações.

Infelizmente essa foi a realidade durante umas dezenas de anos, sendo que agora compete ao Conselho Técnico de Ourivesaria pronunciar-se sobre a marcação, ou não, dos
objectos antigos, mas na prática remetem o parecer para as seguintes entidades, por esta ordem: Direção Geral do Património Cultural, o Museu Gulbenkian, a Fundação
Ricardo Espírito Santo - que como é óbvio remetem para a Casa da Moeda pois é o organismo a que, por lei, compete tal parecer - ou, mais delirante, a um tal Dr. António
Pestana Vasconcelos!!! Se já seria questionável o conhecimento técnico, cultural e científico das três primeiras entidades para um leque tão díspar de artefactos, a derradeira
alternativa da Casa da Moeda é uma manifesta destituição de Santo Eloy como patrono dos ourives.

Como diz o novo ditado, quem tem pestana é Rei...!
Christie's
Por quem, quando e onde foram estas falsificações produzidas?
98
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Como já foi referido, o facto de terem surgido na Christie's, no mesmo leilão e em lotes sequenciais, 3 pares de candelabros iguais, leva a concluir que todos os candelabros em questão foram produzidos numa mesma
oficina, no Porto e depois de 1938. Em todo o caso é bom ter em atenção que no século XIX, cerca de 1870, o ourives da prata de Lisboa António Francisco Xavier da Costa procedeu ao restauro de dois pares de
candelabros da baixela Germain, mais concretamente aos fabricados por Alexis Jacob e Levêque, precisamente os que possuem serpentinas de 4 lumes como os candelabros falsos. Na ocasião este ourives foi ao ponto
de colocar a sua marca, juntamente com a de XI dinheiros, podendo ser a partir daí que tivessem sido tirados os moldes. Outra pista seria uma das autorizações dadas para serem reproduzidas peças da baixela, mais
concretamente o polémico caso da joalharia Mergulhão, em Lisboa, a quem em 1938 teria sido feita uma encomenda de peças. Em 1948 esta mesma ourivesaria publicava anúncios onde dizia
"BAIXELA GERMAIN - na
Joalharia Mergulhão encontrará V, Exª a copia fiel desta magnífica obra de arte"
.
 Em julho de 1949 finalmente sai a proibição desta ourivesaria vender peças copiadas ou inspiradas na Baixela Germain. Sabemos que eram várias as oficinas que trabalhavam com esta casa, tanto em Lisboa como no
Porto, sendo também sabido que exportavam essencialmente para os Estados Unidos da América. A firma faliu após o 25 de Abril de 1974, tendo o leilão de parte do recheio sido efectuado uns anos depois. Pelo que
conhecemos do trabalho de António Francisco Xavier da Costa muito dificilmente esse ourives faria cópias tão perfeitas, e porque não há rasto delas entre 1870 e 1950? Já a hipótese Mergulhão é bem mais plausível, a
firma que fazia as reproduções dos pratos da Baixela Germain era a oficina portuense de Ricardo Antas Leite, um dos melhores ourives do século XX. Poderiam as peças serem entregues sem punções, alegadamente
para exportação, e as marcas serem apostas em Lisboa, sem o conhecimento do ourives que as tinha executado. Sabemos que isso aconteceu muito com jóias, e ao ser dada proibição à Joalharia Mergulhão de vender
as cópias, após ter investido nos moldes das mesmas, vendê-las com marcas francesas era uma alternativa, quanto às reproduções com marcas do Porto pós-1938, ou foram efectuadas antes de 1949, ou a lei não foi
respeitada, o que é estranho atendendo ao facto de as mesmas terem ido à Contrastaria para serem puncionadas. Outra das firmas comerciais para quem Ricardo Antas Leite fez reproduções da Baixela Germain foi a
Gomes da Póvoa.
 Na excelente obra sobre a Baixela Germain "A Baixela de Sua Majestade Fidelíssima" o tema das cópias é abordado, mas, por exemplo, nada é dito sobre a Gomes da Póvoa vender cópias da baixela, ou as
executadas pela firma Pereira Reis, do Porto, e vendidas em diversas ourivesarias tanto de Lisboa como do Porto, sendo que muitas destas peças surgem com frequência em leilão, como se pode ver pelos exemplos
abaixo mostrados.
 Este é um trabalho de investigação que ainda não está terminado, até porque nos resta saber se os punções falsos só serviram para marcar candelabros, ou outras peças dadas como de Pierre Balzac também não
serão falsificações
"made in Portugal". Pela nossa parte até temos uma certa admiração pelos falsificadores, isto não pode ser só exportar pastéis de nata como agora nos é aconselhado, o que nos admira é como
falsificações que colocam em causa nomes internacionalmente reputados, permaneçam expostas durante cinquenta anos, sem que nenhum dos muitos especialistas que abundam por este mundo fora ter percebido que
algo de errado se passava.
 É contra esta conspiração de silêncio que paira sobre o mundo das falsificações que vão grande parte dos nossos esforços, este é só um caso entre muitos mais, sistematicamente omitidos em todas as obras tidas
como de referência, e particularmente dados como casos raros e isolados de que não há necessidade em falar, pois pode levantar suspeitas generalizadas por parte do "mercado". Valha-nos Santo Eloy!
Marcas
Quadro com as marcas
falsas e no final as marcas
verdadeiras de uma peça
do Museu Metropolitano
de Nova Iorque.

Ao lado direito um
faqueiro "Germain"
produzido por Ricardo
Antas Leite e vendido no
Palácio do Correio Velho.
A Saga Continua...!
Andávamos nós embrenhados nos Fabergés,
Fauxbergés & companhia, e eis senão quando
deparamos com esta foto de uns candelabros, muito
semelhantes aos do “Balzac”, com marcas falsas de
Fabergé. Não são feitos com os mesmos moldes,
nem as serpentinas e menos ainda as bases, mas
têm grandes semelhanças, só que pretender passa-
los por Fabergé é de arrepiar os cabelos. Mas é bom
que firmas como a Christie’s os coloquem à venda,
pois é uma forma de alertar o mercado para o que aí
anda de falsificações.
Lot 261
“Boston, we have a problem…”
Um "pormenor" curioso é que são
completamente desconhecidos
quaisquer candelabros com punção
de Pierre Balzac.
Estão referenciados inúmeros
castiçais, mas nem um candelabro!
Este dado, caso os do Museu de
Boston fossem verdadeiros,
acrescentava-lhes uma mais valia
substancial, não se compreendendo
como os apresentam como genuinos
e isso não é destacado, para não
falar no pioneirismo e raridade de um
tão elaborado estilo rocaille de Pierre
Balzac nesta tipologia de peças.
Candelabros A
Candelabros designados por "A", proposto para leilão em Lisboa, no
ano de 2012 e que, há 50 anos, tinham sido propostos ao Sr.
Firestone, segundo correspondência guardada no Museu de Boston
Eis senão quando....
Em Novembro de 2014 a Christie's levou a leilão, em King Street, um par de candelabros em prata dourada em tudo iguais aos que aqui têm sido mostrados, com a curiosidade de que no catálogo era mencionado o facto
de estarem puncionados "Mergulhão"! Só nos restava confirmar a marca de ourives. É que, entretanto, tinha surgido no leilão de dezembro de 2012 da Cabral Moncada, um par de candelabros quese iguais, com o
pormenor de terem sete lumes e terem sido feitos por Juliano Braga, nem mais nem menos que o meu pai... Onde e como ele teria obtido os moldes para os fazer? Uma coisa era certa, apesar de ter feiro várias e boas
falsificações, todas elas foram na década de 60, e os falsos em questão são todos pelo menos da primeira metade da década de 50. Assim que recebemos, por parte da Christie's, as fotos das marcas, viemos a saber
que o ourives que os tinha feito era Francisco Ferreira Valente, um dos melhores prateiros portuenses do séc. XX. Estava não só confirmada a pista da Casa Mergulhão, como agora sabiamos quem os tinha feito.
Passados poucos dias, recebiamos o catálogo de dezembro da leiloeira Suiça Schuler, onde era apresentado um gomil, cópia execta do de François Thomas Germain existente no Museu Nacional de Arte Antiga, com as
armas reais portuguesas ricamente cinzeladas, apresentando igualmente a marca de punção de Ferreira Valente, com o pormenor de a seu lado estar aposta uma marca de importação holandesa, marca essa que foi
extinta em Setembro de 1953.
Na informação disponibilizada pelo Museu de Boston, há alguns dados estranhos, a começar por afirmarem que Harvey Firestone os adquiriu em 1957, a um coemerciante de Nova Iorque, quando essa é a data em que os
ofereceu ao Museu. Acontece que Firestone esteve em Portugal na casa de Ricardo Espírito Santo, e sabemos que Ricardo para além de colecionar também negociava, sendo que por vezes levava à consignação peças
com o propósito de as vender aos "amigos", tantas que pediu ao meu bisavô, sendo que geralmente logo no dia seguinte estava prestar contas do que tinha vendido, no meio de conversas que estavam sempre
relacionadas com a sua coleção de antiguidades, só que havias umas que até tinha "em repetido" ou que já não o encantavam, pois havia entretanto comprado melhor... E assim promovia a venda que já estava delineada,
sem que os incautos amigos fizassem a mínima ideia de que estavam a comprar peças que tinham vindo para sua casa umas horar antes. Poderá ser essa a pista para a proveniência dos candelabros de Boston, quanto
aos demais está praticamente excluida a sua compra directamente na oficina do Porto de Ferreira Valente, sendo mais plausível a Casa Mergulhão, muito na moda nessa época, ou os muitos intermediários que
pululavam em torno de Ricardo Espírito Santo.
Candelabros Christie's Novembro 2014
Marcas candelabros
4364f
4364b
Juliano Braga
Candelabros de 7 lumes, executados pelo
meu pai na década de 1960.