PAR DE MOLDURAS ITALIANAS
EM PRATA DOURADA
Molduras em prata relevada e dourada encimadas por
“Cabeças de querubins”,
costas gravadas “Motivos vegetalistas”,
marca de ensaiador de Roma e ourives da prata
Giuseppe Rusca.
Pinturas sobre placa de marfim
“Reis Magos adorando o Menino”
e “Santo António adorando o Menino”,
assinadas MARIA FELICE TIBALDI SUBLEYRAS
e datadas de 1744 e 1746.
Falta uma cabeça de querubim e uma argola de suspensão.
Quando D. João V faz as encomendas de peças de arte sacra a ourives romanos, para ornamentar a recém erecta Igreja de São Roque, em Lisboa,
foi seguido por alguns membros da sua corte que pretendiam acompanhar o fausto existente nas restantes cortes europeias.
Assim se justifica a existência deste par de molduras em terras lusas. De proveniência ligada à casa real, são exemplares demonstrativos da altíssima
qualidade artística da ourivesaria do séc. XVIII.
Inicialmente esta tipologia de molduras era executada para aplicação em espelhos de variadas dimensões, quer sejam para as paredes ou para
toucador, sem se conhecer qualquer tipo de registo para o enquandramento de pinturas.
Na exposição “Quand Versailles était mueblé d´argent”, em Versailles no ano de 2007-2008, encontramos alguns exemplares anteriores aos
estudados. Os mas significativos das nossas afirmações são o espelho de encomenda real de Guilherme III para o Palácio de Kensighton — espelho
com moldura em prata com armas reais, executado por Andrew Moore em Londres em 1699, medindo 2273 x 1206 cm (vd. p.195 nº cat. 68b) e outro,
também de encomenda real dos príncipes de Braunfels, um espelho com punção de Johann Iº Bastermann (1661-1732), actualmente no Palácio Het
Loo (vd. p. 212, fig. 202).
Embora cronológicamente anteriores, são exemplos de como as peças servem para evidenciar o status social do proprietário.
Tanto o excelente trabalho miniaturista sobre placa de marfim bem como as proporções e o cinzel das molduras, revelam ter sido um trabalho conjunto
de encomenda, demonstrativo da qualidade de ourivesaria italiana.
Moldura  A
Moldura  B
Descrição Técnica:
Para uma melhor identificação de cada uma das molduras, resolvemos identificar a moldura que não tem a cabeça de querubin nem a argola de
suspenção, como moldura A e a que se encontra completa com três cabeças de querubins, como moldura B.

Realizadas por meio de fundição a partir de um molde esculpido, sendo posteriormente cinzeladas, burnidas e douradas. As partes amovíveis também
feitas pelas mesmas técnicas - as 5 “Cabeças de querubin” foram aplicados nas molduras através de espigões roscados e de porcas.
Moldura A:
Peso – 1.192,5 grs.
Sete porcas com  2,52 grs e  6,5 mm Ø.
Chapa posterior:
Peso – 367 grs.  e espessura de 0,7 mm
Foto após limpeza.

Moldura B:
Peso – 1.308 grs.
Oito porcas com  2,82 grs. e 6,5 mm Ø
Chapa posterior:
Peso – 366,5 grs. e espessura de 0,6 mm.
Foto após limpeza
Em relação às técnicas de execução das
duas chapas posteriores das molduras, com
as medidas: 19,5x14,5 cm, foram lâminadas e
hábilmente cinzeladas e burnidas.

As Marcas de Roma (c.1744-1752) e do
ourives Giuseppe Rusca (1696-1745)
encontram-se nesta parte e também no friso
exterior das molduras.
Do lado esquerdo, o punção de contorno
irregular da cidade de Roma, datável de finais
da primeira metade do séc. XVIII, com as
chaves do Vaticano cruzadas e encimadas
pela tiara papal e do lado direito o ourives
Giuseppe Rusca  em forma de “trifólio”.
Pinturas sobre marfim:
As duas miniaturas sobre marfim encontram-se assinadas por Maria Felice Tibaldi Subleyras (1707-1770)  e datadas de 1744 e 1746, no canto
inferior direito.
Ambos os temas de cariz religioso são do agrado da época evocando a adoração dos Reis Magos ao Menino e a adoração do Menino por Santo
António, temas também  desenvolvidos pelo seu marido - Pierre Subleyras (1699-1749), muito apreciado por estes temas mas em telas de grandes
dimensões.
Tal como se pode observar no quadro ao centro, a placa de marfim cortada numa peça inteira tem de dimensão 19,5 x 14,5 cm e de espessura 2
mm. Encontra-se colada numa faixa de pau santo com 3,5 mm de espessura.
Sofia de Ruival Ferreira  (texto)

Henrique Correia Braga  (fotos e revisão)
setstats
    Estas são as célebres molduras colocadas em leilão na Cabral Moncada em Outubros de 2008, com o valor base de € 5.000. Sem identificação das
marcas da prata e com a indicação de que as pinturas eram sobre pergaminho. Só as vimos quando a exposição do leilão jé estava a decorrer. Após
as desmontarmos, vimos que as pinturas eram sobre marfim. Quanto às molduras em prata dourada, o seu excecional trabalho de modulação,
execução e acabamentos evidenciava uma qualidade tal que imediatemente nos ocorreu que deveriam ter feito parte da encomenda de D. João V
para a Capela de São Roque.
    Em vão alertámos as autoridades competentes com vista a que as mesmas fossem adquiridas ou pelo Estado Português ou pelo Museu de São
Roque. Ninguém apareceu sequer para as ver. Viriam a ser arrematadas por um conhecido colecionador português, pela quantia de € 42.000.
    Em julho de 2009 a Christie's de Londres voltava a colocar em leilão as mesmas molduras, com a estimativa mínima de € 57.000. No dia 7 de Julho,
2 dias antes do leilão, a Christie's adiantava no seu site que "
Os quadros foram identificados como fazendo parte de uma encomenda de D. João V na
altura da construção da Capela de São João Baptista, na Igreja de São Roque, em Lisboa, em meados do século XVIII
.
    De acordo com a historiadora de arte inglesa, Jennifer Montagu, nos arquivos portugueses existem referências às obras e ao pagamento de 300
scudi [moeda italiana da altura] no total, foi feito em três prestações a 29 de Julho e 18 de Novembro de 1744 e 30 de Janeiro de 1745.
    Os documentos, citados pela historiadora inglesa, permitem ainda saber que ao mesmo tempo foi pedida uma terceira miniatura em que é retratado
São José, mas que entretanto desapareceu e que inicialmente as molduras deveriam ser realizadas em ébano, mas que acabaram por ser feitas em
prata dourada, tendo custado o dobro das pinturas.
    Terminaram arrematadas por € 432.000, dez vezes mais o que tinham feito em Lisboa perante o desinteresse total por parte daqueles que seriam
os maiores interessados em adequirir, a preço de saldo, uma obra desta importância. A nossa descoberta e intuição de nada tinha servido ... só para
fazer subir o preço até aos € 40.000...!
    Já que não vão estar presentes nas exposições tanto do Museu Nacional de Arte Antiga como do Museu de São Roque, voltamos a colocar online
a página que tinhamos escrito quando do leilão em Portugal.
Bookmark and Share