Uma exposição sobre ourivesaria é sempre uma boa notícia,
realize-se ela em Portugal ou não. Se for em Espanha, neste caso
Madrid, até que nem é longe e, agora que a Páscoa se aproxima e
tantos portugueses vão a Madrid, porque não ir ao Museu de Artes
Decorativos, ali bem perto do Prado, e apreciar esta exposição? Pelo
folheto que o Museu disponibiliza, trata-se de um leque muito
alargado de peças, de várias épocas e países, podemos ver até uma
cafeteira atribuída ao círculo de François Thomas Germain, quase
igual ás que pertencem á "nossa" Baixela Germain.


A exposição tem como comissário científico o Dr. Javier Alonso Benito,
do departamento de investigação e divulgação desse museu, autor
de muitos artigos
e livros, dos quaistemos vários. Ainda há dois anos
tinha sido um dos catedráticos que
 deram um curso sobre os falsos
nas artes decorativas, realizado na E
scola de Artes e Antuguidades
de Madrid
, talvez o único investigador que aborda frontalmente
matéria tão "explosiva"
.

Com a legenda da referida cafeteira, fomos ao site do museu em
busca de mais informação sobre a dita. É que o pormenor do "circulo
de François Thomas Germain" nos estava a intrigar, sabemos que
vários ourives participaram nas grandiosas encomendas feitas a
Germain, mas não tinhamos conhecimento de cafeteiras deste tipo.

Para evitar demoras na pesquisa, que não é assim tão linear como o
desejado, e apesar da página não ter link, lá conseguimos examinar
os códigos fonte e assim basta clicar na foto da direita para serem
direcionados para a dita ficha desta cafeteira, ficha essa da
responsabilidade do dito comissário - para não restarem dúvidas o
seu nome vem citado sete (7) vezes na catalogação.

Leiam bem e com atenção, sendo mesmo aconselhável reler algumas
partes...!

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Quanto á minuciosa e prolongada descrição da cafeteira, nada a apontar quanto á erudição do autor, apesar de preferirmos sempre umas boas fotos a descrições que fazem mais sentido se escritas
em Braille. Mas por vezes, e é este o caso, tais descrições floreadas escondem erros e omissões graves. Para já não se percebe como ao autor, analisando uma cafeteira que diz ser de Germain e que
tinha sido apreendida quando entrava ilegalmente em Espanha vinda de Portugal, não lhe ocorreu pesquisar por cafeteiras idênticas na Baixela Germain. É que deste modelo só foram feitas seis, quatro
estão em Portugal, uma está em paradeiro desconhecido e a outra é pertença, desde 1933, do Museu Metropolitano de Nova Iorque. E esta última, ao contrário do que o autor escreve, está
perfeitamente marcada, sendo que no encaixe da pega em madeira tem a seguinte inscrição: "
Fait par F.T. Germain Sculp[teu]r Orf[ev]er [sic] du Roy aux Galleries du Louvre à Paris 1757". Afirmar
que o exemplar americano está carente de marcas é mera desonestidade intelectual, ou então é Javier Alonso que está carente de um par de óculos! Por acaso na obra "A Baixela de Sua Majestade
Fidelíssima", publicada pelo Palácio Nacional da Ajuda, em 2002, são referidas as tais duas cafeteiras como em paradeiro desconhecido, tendo passado despercebida a de Nova Iorque. Consultando a
ficha que o MET disponibiliza online, constata-se que a mesma foi adquirida ao colecionador e negociante Jacques Helft, que a tinha comprado aos herdeiros da Condessa de Edla, sendo portanto uma
das que teriam ficado no Brasil para serviço de D. Pedro. A outra, que
oficialmente está desaparecida, pensamos que é a que foi vendida em 1992 na Sotheby's, da coleção Arturo Lopez Willshaw,
rematada no Mónaco por um milhão seiscentos e cinquenta mil dólares; no próprio catálogo estava escrito "
This piece is one of a number of virtually identical coffe pots supplied in 1756 by François
Thomas Germain as part of the magnificent service ordered by King José I of Portugal
".
O estranho é que nas
memórias de Jacques Helft, publicadas no Mónaco em 1955, o mesmo conta que comprou uma das cafeteiras ao Dr. Azevedo Gomes, que já conhecia das suas anteriores
estadias em Lisboa, quando a bordo de um cruzeiro fez uma escala de 24h00 em Lisboa. Logo após o navio sair do porto, um dos passageiros que tinha visitado o Museu Nacional de Arte Antiga,
comentava que uma das peças que mais tinha admirado era uma cafeteira feita por Germain... Jacques Helft convida-o então a ir à sua cabine, e qual não é o espanto do dito passageiro quando vê ser
desembrulhada uma cafeteira em tudo igual!!! O próprio Helft comenta na sua biografia que considerava que a tinha adqurirido de forma ilícita, desabafando que tranquilizou o outro passageiro dizendo
que a mesma iria um dia ser doada ao Museu do Louvre, acrescentando que já tinha vendido uma outra ao Museu Metropolitano. Ou seja, as duas cafeteiras que estão dadas como desaparecidas
foram ambas compradas e revendidas por Helft, só que Arturo Lopez não a doou ao Louvre. Como nota cabe referir que a cafeteira vem ilustrada na dita biografia, o que significa que nenhum destes
livros e catálogos foi consultado tanto pelo "cientista" espanhol como pela equipe que elaborou o livro do Palácio da Ajuda, dirigido e coordenado por Isabel da Silveira Godinho.  
Como se pode ver, a inscrição existente no encaixe da pega não deixa margem
para dúvidas sobre a autoria da mesma. A foto está na página que podem
consultar clicando na foto da esquerda
Finalmente fomos ver a foto das tais marcas deliberadamente mutiladas. Sem dúvida que uma delas está
ilegível e a outra torna-se complicada para quem não esteja habituada com marcas portuguesas. Seja como
for estava excluída a hipótese francesa, principalmente do séc. XVIII, pois a dimensão das marcas é
muitissimo menor que as utilizadas em França, mesmo no séc. XIX ou XX o perímeto da marca de ourives
nunca poderia ser aquele, apesar de estar deformado em relação ao original.
Para quem se interessa um mínimo por pratas portuguesas, logo se apercebe que se trata de umas das
dezenas de cafeiteiras iguais que foram produzidas na oficina do prateiro portuense José Pereira Reis. Ainda
há uns 20 anos eram muitas as montras de ourivesaria que as apresentavam em destaque, de lá para agora
é principalmente nos leilões que elas aparecem com certa regularidade. À hora a que estamos a escrever
está uma a ir à praça no Rio de Janeiro, no nosso bem conhecido
Mozart de Melo.
Não se percebe como é possível fazer uma ficha para um museu sem se pesquisar coisa nenhuma, para
mais quando a peça que se tem em mão poder valer mais de um milhão de euros, isto para não falar na
partilha de dados entre museus, tantas vezes que trocamos impressões com museus e leiloeiras
internacionais, antes de dar o veredito final. Um erro que desde já assumimos é ter designado um destes
exemplares como chocolateira, apesar da pega lateral e do formato não ser comum às nossas cafeteiras,
como se pode ver na foto abaixo os bules são de formato comum, mas as duas chocolateiras que estão na
parte superior da foto não deixam dúvidas que as quatro de baixo tinham que ser cafeteiras,
independentemente da dificuldade que dever ser servir chocolate sem um bico para verter...
Voltando à cafeteira Germain/Pereira Reis, poderão supor que este foi um erro, grave, mas caso isolado.
Bem, a segunda cafeteira que está na exposição é a que figura am baixo do lado esquerdo, aqui Javier
Benito exita entre inglesa e francesa, optando finalmente por esta última hipótese. Claro que a dita cafeteira
é portuguesa,
com marca do bem conhecido Torcato José Clavina Bernardes, célebre ourives de Lisboa da
1ª metade do XIX. Já agora é de acrescentar que a marca L-501, atribuída na obra de Moitinho de Almeida
"Marcas de Pratas..." é de Tomás José Cardoso, este sim ourives da prata da 2ª metade do séc. XVIII.

Mas lá vem a marca dos XI dinheiros, o que levanta dúvidas sobre a autoria recair em Torcato José Clavina e
poder tratar-se de uma peça do séc. XVIII, apócrifa, a qual foi mandada marcar em data muito posterior à do
seu real fabrico.
Mais um mistério que ficará a aguardar resolução, isto das artes decorativas não é mesmo uma ciência
exata, não sabemos por quantos anos ou  décadas ou teremos que pesquisar até encontrar a solução.