Um esqueleto em leilão...
e outro que sai de um armário do Louvre...
291e
291
A Sotheby's vai colocar em praça um autêntico tesouro: A
Coleção Judaica Michael & Judy Steinhardt, num leilão exclusivo
desta coleção, a 29 de abril, em Nova York.
Os objetos excepcionais e raros que compõem a Coleção
Steinhardt ilustram o alcance da história judaica da antiguidade
até o século 20, atravessando a Europa, Ásia, África e Américas.
Os cerca de 400 lotes no leilão - com uma ampla gama de esti-
mativas - tocam todos os aspectos da vida judaica, representan-
do a vivência espiritual judaica tanto no ambiente familiar como
das sinagogas.
Eis como o próprio Michael Steinhardt descreve os motivos
desta decisão -
“I began assembling this collection more than
30 years ago. I found it inspiring to be close to precious
objects of Jewish history and culture. Researching their
ownership histories and sharing many of them with the public
through museum exhibitions has been particularly gratifying.
Now, at 72, it is time for the collection to be passed on to a new
generation, in the hopes that it will encourage them in turn to
discover a rich Jewish heritage and the joy of owning a piece
of their past.”
291g
291c
A importância desta coleção extravasa em muito o universo judaico, sendo,
relativamente à ourivesaria, que é o nosso
leitmotiv, de grande importância
visto muitos dos "nossos" ourives terem sido judeus e a sua expansão pelo
mundo ter levado a um dispersar geográfico de técnicas e motivos
decorativos que se tornam, nos nossos dias, um desafio para a sua datação
e origem, nomeadamente na técnica da filigrana.
A mobilidade dos artistas e artifices desde as épocas mais remotas, sempre
colocou grandes dilemas aos historiadores de arte, e muitos erros e
omissões têm-se dado pela necessidade de compartimentar em estilos e
períodos, numa visão simplista e redutora de uma realidade que é rigorosa-
mente o oposto. Tal necessidade advém das especificidades do mundo
académico, onde a própria avaliação do aluno se alicerça forçosamente
nessa visão reducionista, transvasando posteriormente para o universo
museológico, o mundo editorial e para o próprio conjunto do mercado de arte.
Coleções como esta permitem-nos um novo olhar sobre uma realidade bem
mais complexa e dinâmica, sendo que as tipologias da história e da cultura
judaica constituem um manancial riquissimo de informação.         
Não podemos olhar para este espólio, agora em leilão, sem deixar de
recordar o conjunto de pratas que repousam na sinagoga portuguesa de
Amesterdão, à espera de quem as estude à luz do que tem vindo ao mercado
nas últimas décadas...
      Israel Dov-Ber Rouchomovsky, nascido na cidade de Mozyr,
actual Bielorússia, tornou-se um ourives em grande parte
autodidata. Emigrando para a cidade de Odessa, aí monta
oficina e ganha fama de exímio artífice. Será essa fama que
mudará radicalmente a sua vida, mas fiquemos por agora na
peça em leilão.
Esqueleto: Ouro, articulado, com 9cm e 22 gr, foi executado
entre 1892 e 1896;
Sarcófago: Prata cinzelada e dourada. Os painéis laterais
representam os vários ciclos da vida - Nascimrnto, educação,
casamento, vida adulta, velhice e morte. Na tampa está
simbolizado o caminho dos humanos para a morte, guiados
pelo Anjo da Morte. Foi executado entre 1896 e 1901.

Em cima, clicando no logotipo da Sotheby's, está a descrição
do lote em venda. Abaixo, no logotipo da Chritie's, está a
catalogação da sua venda em 1998.      
  No dia 1 de Abril de 1896 o Museu do Louvre adquire, pela espantosa soma de 200.000 francos ouro, uma Tiara  em ouro cuja legenda cinzelada atesta que tinha sido
oferta dos cidadãos de Olbia ao Rei Cita Saitaferne. Não foi pela data da aquisição que o 1 de Abril se tornou o dia das mentitas ou dos loucos, mas que houve uma grande
coincidência lá isso houve. O fiasco desta aquisição correu mundo, foram escritas canções, publicados postais jocosos e o mundo da arqueologia dividiu-se, entre apoiantes
da tese da autenticidade e os que viam uma falsificação, muito bem executada mas com erros reveladores de que algo não batia certo.

 No final da página colocámos, por ordem cronológica, os principais trabalhos académicos sobre este tema. O prineiro foi escrito em 1898 pelo célebre arqueólogo Maxime
Collignon, acérrino defensor da autenticidade da Tiara. Curiosamente no mesmo artigo junta uma adenda, escrita já em Janeiro de 1899, onde dá conta de duas peças
falsas entretanto surgidas no mercado francês. Pensamos que uma delas é o Rython que está ilustrado na revista Ost West, de 1905, que igualmente publicamos, sendo
que esta peça figurou posteriormente no Salon des Arts Decoratives, juntamente com outras obras de Israel Rouchomovsky. O último artigo é do ano de 2010, escrito por
Véronique Schiltz e publicado pelo INSTITUTE OF ARCHAEOLOGY da ACADEMY OF SCIENCES OF THE REPUBLIC OF UZBEKISTAN.

 Nos dias de hoje já ninguém sequer pensa em defender como verdadeiro tal objecto, sendo que a polémica se centra em que medida se podem atribuir culpas e
responsabilidades aos que defenderam a tese de que se tratava de uma peça da antiguidade. Muitos são os que fazem uma defesa corporativa, alegando que à época não
estavam disponíveis os meios suficientes para os académicos que defenderam a autenticidade da Tiara, serem hoje condenados numa perspectiva histórica radicalmente
diferente. Se bem que isso seja verdade, há muitos aspectos que não podem ser escamoteados quando se analisa a defesa da autenticidade do dito objecto. Alegar que
não podia ser falso visto existir uma lei na Rússia que obrigava à marcação de todas as peças de ourivesaria, tem algo de tão familiar com o que se passa em Portugal que
até a nós nos espanta. E a atitude elitista de que um mero ourives nunca poderia ter os conhecimentos "académicos" suficientes para enganar a própria "academia", é
recorrente nos dias de hoje. Fica-se pela simples análise formal e estilistica, sendo impensável recorrer aos próprios ourives para que estes se pronunciem sobre algo de
que são os melhores conhecedores.

 Este aspecto não se singe, como é óbvio, só ao universo da ourivesaria ou da joalharia. Veja-se o célebre caso de Werner Spies, o eminente historiador de arte, ex-director
do Centro Pompidou, autor do Max Ernst Oeuvrekatalog em seis volumes e de muitas outras obras sobre o mesmo pintor, de quem foi amigo pessoal, e que, no célebre caso
das falsificações de Wolfgang Beltracchi, dos sete quadros falsificados de Max Ernst, Spies certificou todos como autênticos, recebendo por esse trabalho €500.000.00!!! No
século XXI os tiques de uma certa elite continuam iguais aos do século XIX, resta saber por quanto mais tempo...

 Para finalizar, colocamos um postal pintado pelo próprio Israel Rouchomovsky, vendido no ebay, que nos leva ao site de um negociante de arte russo radicado em Viena,
que nos dá novas e surpreendentes pistas sobre o caso da Tiara e não só!
Tiara
Tiara_orig
3906_002a
Oh, la Tiare
FORGERIES
Pequenos contributos para a história das
falsificações em Arte, um tema sempre actual e
em evolução...