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Deixai toda esperança, ó vós que entrais!
      Sempre que subo as escadas do Palácio Ficalho, vem-me invariavelmente à memória, não sei porquê, tanto o magistral quadro de Rubens "o massacre dos
inocentes" como uma das muitas ilustrações do "inferno de Dante". Hoje aconteceu o mesmo, mas após visitar a exposição do próximo leilão da Soares &
Mendonça, foi a frase do portal do inferno que me tomou o espírito.
     Efectivamente já pouca esperança existe num qualquer desfecho para esta luta, cada vez mais quixotesca, contra as falsificações! Poderá haver ainda alguma
esperança para que as falsificações, produzidas em escala industrial, deixem de aparecer no mercado de arte? Quando estas tomam a forma de condecorações,
parece que a esperança está ensombrada pelos dizeres do portal do inferno. Mas como Dante foi lá que iniciou a caminhada, que o levaria ao paraíso, pode ser que
um dia a teimosia resulte em algo positivo...
     É mais que sabido quem fez e comercializou as dezenas de condecorações e comendas em prata que têm, ao longo dos anos, surgido no mercado. Para quem
não as conheça, abaixo deixamos as fotos dos exemplares que agora vão à praça, bem como de algumas que as antecederam, na mesma casa leiloeira. Não
significa isto que a Soares e Mendonça seja a única a colocar em venda tais peças, ainda este ano a internacionalmente conceituada Morton & Eden, em conjunto
com a Sotheby's, colocou à venda dois exemplares da mesma origem destas, e até na coleção do Conde da Póvoa (Palmela) havia algumas, de aquisição recente,
misturadas com as "boas", só que o Palácio do Correio Velho decidiu não as pôr em venda, mesmo que identificadas como réplicas.
     O mais preocupante neste assunto, é o silêncio por parte do mercado de arte para com estas sucessivas vendas. A existência de uma Academia Falerística de
Portugal
deveria pressupor uma denúncia destas continuadas práticas ilícitas, até porque os seus responsáveis sabem bem a que nível estas falsificações
chegaram. Não se trata de condenar quem as fez, esses há muito que foram absolvidos pela nossa "justiça", trata-se sim de objectar a que a própria História esteja
a ser falsificada, para não falar nos danos infligidos ao colecionismo destes bens, entre outros aspectos.
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Em Artes Decorativas o acto de manusear os objectos é
altamente reprovável, quase crime capital, por isso é
uma boa oportunidade a deslocação a esta exposição
para pegarem à vontade nestes artefactos, verem e
sentirem como eles têm características técnicas
comuns, ou seja, saídos de uma mesma oficina.
É assim que se aprende...!
     Este assunto tem contornos da mais alta gravidade, pois parte destas falsificações foi exposta com pompa e circunstância ao mais alto nível, inclusive adquirida
por parte de um Museu do Estado. Ao ser constatado que 100 % das peças eram falsas, o processo transitou para a justiça, vindo a ser acusados os dois principais
responsáveis pelas falsificações. Acontece que estes arrolaram como testemunhas de defesa uma boa parte da nossa "elite" cultural e social, inclusive o
responsável "científico" pela exposição já citada, uma das personalidades mais relevantes na História de Arte em Portugal. Do lado da acusação estiveram os
"peritos", em manifesta inferioridade, algo preponderante no desfecho de um processo na nossa justiça, onde a aritmética é rainha e senhora. Se de um lado há uma
dúzia de "personalidades" a dizer que os réus são cidadãos acima de qualquer suspeita, que nunca os viram a bater na consorte ou sequer no piriquito, de que serve
à meia dúzia de peritos alegar os mais evidentes erros técnicos, ou dizer que toda a gente no mercado sabia o que se estava a passar...!

     Perante o testemunho de um catedrático, na sua análise
heurística a "raríssimos" exemplares "maneiristas ou tardo-maneiristas" da falerística nacional,
descrevendo magistralmente as constâncias e continuidades que reforçam o carácter autóctone destes estilemas da micro-história da arte, paradigmas de uma
trans-memória imagética, relevante do epigonismo da parte contrária nas suas exclusões redutoras e efémeros destaques superlativos - bem pode esta argumentar
que a chapa é laminada, que o dourado é electrolítico, que o esmalte é recente, que a patina é artificial ou que os gravados "maneiristas" são feitos a pantógrafo
computorizado. A elequência do primeiro já ditou a sentença, ou não fossem todos eles
primus inter pares.

     
Aliás, se agora um perito recusar que uma destas peças vá a leilão, está objetivamente a violar a lei, sugeitando-se a que seja processado criminalmente pois já
foi feita jurisprudência nesta matéria. Tanto os falsificadores como a "justiça" devem estar em permanente festejo por tal sentença. Não sei se algo de semelhante se
terá passado na Coreia do Norte, mas mesmo sabendo que por lá há muito trabalho para um avaliador de condecorações, o melhor mesmo é mudar de profissão!  

Henrique Correia Braga
Perante o conluio capital/justiça, faleristas de todo o mundo,
uni-vos...!